terça-feira, 18 de outubro de 2022

Deus quer que saibamos buscá-Lo no amor e na fé

 


Oração é busca de Deus. Porém, nem sempre é fácil encontrá-Lo ou reconhecê-Lo entre nós. Deus entra na nossa história e mistura-se conosco. O Verbo se fez carne de forma muito humilde, simples e pobre, totalmente despretensiosa. Enquanto as filhas dos nobres preparavam seus castelos para receber o Messias, Ele preferiu nascer pobre, num estábulo, desprovido da exuberância e do perfume do palácio dos reis. Assim foi, e, embora muitos judeus esperassem grandes manifestações na vinda do Messias, Ele veio discreto e silenciosamente.

Às vezes, não encontramos Deus porque Ele não se revela como gostaríamos. Ele exige de nós uma total purificação do nosso ser. Precisamos nos esvaziar para sermos preenchidos pela Sua força. A exigência da oração é o total desapego, e somente assim somos inundados por aquela luz especial que possuem apenas os que procuram o rosto de Deus “com ânsias de amor inflamado”: “Tua face, Senhor, eu busco. Não me escondas o teu rosto!”.

Minha experiência pessoal revela – e os outros confirmam –, que o encontro com Deus não é estático, mas dinâmico, por isso mesmo, sempre novo. Quando pensamos que o encontramos e “agarramos”, Ele “escapa”, esconde-se e nos deixa num profundo sentido de desolação. É o caminho da noite que precisamos aprender a trilhar silenciosamente e a sós, esperando que o Senhor apareça novamente quando lhe aprouver. A nós cabe gritar e procurar, a Ele cabe responder. A saudade de Deus é uma doença tão forte, que somente se cura “com Sua presença e figura”.

Saber esperar

Atualmente, não sabemos esperar. O mundo da tecnologia gera a impaciência. Queremos que tudo seja “para ontem”, esquecemos que existe também o amanhã. O saber esperar é uma atitude bíblica. No caminho da oração, saber esperar o momento de Deus quer dizer que Ele nos visita quando menos esperamos e que a nós cabe a vigilância, como virtude de quem sabe que, mais cedo ou mais tarde, Ele virá nos visitar.

Na escola dos profetas e místicos, aprendemos a virtude da esperança. As demoras de Deus são pedagógicas. O orante é, antes de mais nada, homem e mulher de esperança, que não se cansa de bater até que a porta se abra, nem de procurar até que encontre, nem de pedir até que obtenha o que mais deseja.

Esperar é lançar os olhos além de todos os pequenos horizontes da vida e crer que o Senhor da história nos prova, mas não nos abandona. Ele quer que o procuremos com a intensidade da esposa que busca o seu esposo, como os olhos dos servos que esperam tudo do seu Senhor. O salmista anima: “Coragem! Espera no Senhor!” (Sl 26). Nessa coragem, são superados os medos e as incertezas da fé. A esperança é alimentada pelo amor. Só espera quem tem fé e quem ama. A vivência das virtudes teologais se faz indispensável para quem quer se tornar um orante. Deus não se deixa manipular pelos nossos sentimentos ou exigências humanas; Ele sabe como e quando vir em nosso socorro.

Ir a Jerusalém

A Palavra de Deus sempre nos ensina o caminho da oração. Na vivência da Palavra e na sua meditação, encontramos o caminho que devemos seguir para encontrar o Senhor. O texto de Lucas 2,41-50 ajuda-me na busca de Deus. Sempre encontro o Senhor em Jerusalém, na “cidade santa”, que não fica em determinado lugar, mas no coração de cada um de nós.

Somos a nova Jerusalém, para onde devemos ir todos os dias para estar com o Senhor. Ir a Jerusalém quer dizer que é preciso desinstalar-se, sair de si, romper com todas as formas de comodismo e, sem medo, enfrentar todas as dificuldades que podem estar no caminho. Quem se coloca a caminho é movido por um forte ideal. Orar é “subir a Jerusalém”, tomar uma “determinada determinação”, saber que “vida cômoda e oração não podem combinar”, que somente o amor pode nos convencer a deixar a vida tranquila do nosso dia a dia e procurar o Senhor que nos espera para nos amar.

Maria, José e Jesus, todos os anos, deixavam a tranquilidade de sua casa, em Nazaré, enfrentavam as dificuldades do caminho, pobreza, cansaço, para irem a Jerusalém prestar a adoração devida ao Senhor. Um caminho que tem o sabor do êxodo, carregado, sem dúvida, de dor e cruz. Mas eles sabiam que, no Templo de Jerusalém, o Senhor os esperava. A leitura silenciosa e meditativa deste texto nos faz compreender como deve ser o caminho da nossa oração.

Jesus, aos doze anos, no Templo

“Todos os anos, na festa da Páscoa, Seus pais iam a Jerusalém. Quando Ele completou doze anos, subiram a Jerusalém segundo o costume da festa. Acabados os dias de festa, quando voltaram, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que os pais o percebessem. Pensando que estivesse na caravana, andaram o caminho de um dia e o procuraram entre os parentes e conhecidos. Não O achando, voltaram a Jerusalém à procura d’Ele. Três dias depois, encontraram-nO no Templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo e fazendo perguntas. Todos que O escutavam maravilhavam-se de Sua inteligência e de Suas respostas.

Quando O viram, ficaram admirados; e Sua Mãe Lhe disse: “Filho, por que agiste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, te procurávamos”. Ele respondeu-lhes: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa do meu Pai?”. Eles não entenderam o que lhes dizia. Depois, desceu com eles e foi para Nazaré, e lhes era submisso. Sua Mãe conservava a lembrança de tudo isso no coração. Jesus crescia em sabedoria, idade e graça diante de Deus e das pessoas”. Passados os dias da Páscoa, voltaram.

Coloquemos em evidência alguns aspectos concretos para a nossa vida de oração

A oração é um momento de alegria, de Páscoa, de festa, mas não pode durar para sempre. Deus nos chama à intimidade com Ele, convida-nos a subir a montanha para experimentarmos Sua presença, ou ao deserto, porque quer falar ao nosso coração no amor e na solidão, ou nos desperta na noite para dialogar conosco e nos apresentar Seus projetos. Mas, depois desses momentos de intimidade, Ele quer que voltemos às nossas atividades e sejamos testemunhas autênticas do Seu amor.

A fidelidade e firmeza do orante não se provam enquanto ele está orando, mas no cotidiano da vida. É sua maneira de agir, de falar, de ser que torna visível sua amizade com Deus. É interessante como, na Bíblia, temos sempre essa atitude da intimidade com Deus, que dá forças para voltarmos aos nossos compromissos humanos. Cada vez mais compreendo que entre oração e ação, entre contemplação e atividade não pode existir “divórcio nem desquite”, mas, ao contrário, uma profunda união. Na oração, revela-se a nossa atividade, e na atividade se manifesta a autenticidade da nossa oração.

Maria, José e Jesus não ficaram para sempre no Templo. Depois da festa da Páscoa, puseram-se novamente a caminho. Assim, depois de nossos momentos de oração, de retiro e encontro, devemos voltar ao trabalho. Toda Páscoa, que é domingo, devolve-nos à “segunda-feira”, que é trabalho e labuta onde devemos procurar ser fermento e ganhar o pão com o suor da nossa fronte.

O Menino ficou em Jerusalém “sem que os Seus O notassem”

Essa expressão de Lucas pode nos ajudar a entender como, embora voltando ao trabalho, devemos permanecer unidos ao Senhor na oração. A intimidade, a vida na presença de Deus nunca pode ser interrompida. Quer comamos, bebamos ou façamos outras coisas, sempre devemos agir em Deus.

Maria e José retomaram o caminho de volta, quem sabe preocupados com os afazeres que os esperavam em Nazaré, mas Jesus permaneceu em Jerusalém. Nunca devemos “sair” do clima de contemplação e intimidade. Deus quer que estejamos, constantemente, unidos a Ele, que não nos separemos do Seu amor nem da Sua presença. Essa linguagem bíblica nos compromete à vivência sempre em plena sintonia com o Deus da vida. Os místicos e santos sempre nos recordam disso. João evangelista, quando diz que “Deus é amor”, convida-nos a permanecermos n’Ele, porque Ele sempre permanece em nós.

Maria e José não se preocuparam com Jesus. Pensavam que Ele estivesse com os outros, na caravana que voltava feliz e cantando de Jerusalém. A Páscoa cria um novo clima de fraternidade, “caminharam um dia inteiro” despreocupados. Mas, ao entardecer, sentem a necessidade de se unirem novamente a Jesus. Também nós passamos o dia inteiro preocupados com tantas coisas, mas, ao cair da noite, sentimos a necessidade de buscar novamente o Senhor para estar com Ele, para entrar em comunhão, para experimentar, numa forma mais forte, a presença do Amado, como fizeram Maria e José, mas nem sempre O encontramos.

Não O tendo encontrado…

A dor da decepção é sempre muito grande. Essa dor foi experimentada por Maria e José que, buscando Jesus, não O encontram entre os amigos e parentes. Se eles, que cuidavam tanto de Jesus, estavam sempre presentes em tudo aos desejos e ao cuidado de Jesus, perderam-nO de vista, tanto mais isso pode acontecer com cada um de nós. Podemos buscar Jesus e não O encontrar, pedir que outros nos ajudem e ninguém saber nos ajudar. Podemos viver momentos de desnorteamento nesta procura de Jesus. A experiência humana da nossa fragilidade nos faz sentir impotentes e tristes. Nem sempre encontramos Jesus onde “esperamos que Ele esteja”. Mas, graças a esta perda de Jesus, a Bíblia nos oferece o segredo onde devemos voltar a encontrá-Lo, onde Ele sempre nos espera.

Voltaram a Jerusalém

Aqui está o verdadeiro segredo da oração: voltar a Jerusalém. Se nos acontecer, depois de um dia de viagem, de “perdermos Jesus”, não devemos nos desesperar. Devemos pedir a todos que nos ajudem a encontrar novamente o Senhor.

Se, no entanto, as criaturas forem incapazes de nos dizer onde está o Senhor, resta-nos o caminho de volta para Jerusalém, para o santuário, para o lugar onde o Senhor nos espera. E onde está Jerusalém? No nosso coração, na Palavra de Deus, na Igreja… Deus jamais desiste de nós, mesmo quando não O sentimos.

Voltemos a Jerusalém, onde o Senhor nos espera sempre para novamente entrarmos em comunhão conosco! Ele quer que saibamos buscá-lo no amor e na fé. Quando o encontramos, Ele desce conosco para Nazaré, para a vida, e permanece conosco para sempre.

Frei Patrício Sciadini, OCD

Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/deus-quer-que-saibamos-busca-lo-no-amor-e-na-fe/


segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Na escola da oração: Jesus é o modelo



Jesus é o grande orante, e só podemos seguir o Senhor sendo orantes como Ele.

Um dia, Jesus estava orando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos lhe pediu: “Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos”. 36

Fica claro, nessa passagem, que Jesus parava para rezar. E nós só aprendemos a rezar estando com Jesus, por isso seus discípulos vão pedir para que Ele os ensine. Em seguida, Ele ensina a oração do Pai-nosso. É a oração de Jesus que desperta no discípulo o desejo pela oração. Assim, nós podemos participar da oração d’Ele.

Jesus nos ensina a orar, pois é a oração que nos aproxima d’Ele

A oração que o Senhor ensina nos permite ter um acesso ao Pai como Ele sempre teve. Jesus tinha uma relação pessoal e absoluta com o Pai. Como Ele nos ensinou a rezar, podemos também acolher essa relação. A oração implica relação filial.

Através da oração que o Senhor nos ensina, abre-se um caminho de conversão e verdade, pois a verdadeira oração nos abre à verdade e deve brotar da verdade.

A oração que Jesus nos ensinou nos põe na presença do Pai e deve gerar confiança em quem reza.

Quem reza precisa pedir ao Senhor que o ensine a orar, pedindo a graça e a luz para conseguir penetrar os segredos da oração, a fim de que consiga levar uma vida cristã autêntica e verdadeira. “Todas as coisas têm por fim a oração” (São Francisco de Sales).

O que é a escola da oração?

A escola de oração diz de aprendizado, ou seja, para rezar é preciso aprender. Todos os dias, precisamos aprender uma nova lição da oração; não é algo acabado. Nessa escola, Jesus é o Mestre que nos ensina a rezar.37 N’Ele, temos uma oração livre, verdadeira e autêntica. Ele sempre será o modelo e mestre.

Precisamos entrar na escola de Jesus, que é uma escola de oração. Jesus sempre teve um diálogo íntimo e constante com o Pai; a oração gera em nós esse diálogo íntimo e comunhão profunda.

Nessa escola de oração, não podemos esquecer que o homem precisa tomar consciência de si mesmo e de Deus. Quem reza precisa ser dependente de Deus, precisa entender quem é Deus e quem é o homem, além de saber qual o lugar de Deus na oração e o lugar de quem reza. Nesse sentido, podemos destacar três grandes personagens bíblicos que nos ajudam a entender o verdadeiro sentido da oração, de se colocar diante de Deus nessa escola de oração. Queremos olhar para a oração de Tobias,38 Judite39 e Ester40 como um modelo a ser seguido.

Eles confiaram na intervenção de Deus, mesmo tendo uma angústia ou aflição que os invadiam; eles não se desesperaram, mas rezaram e se colocaram na presença de Deus. O primeiro ponto é colocar-se na presença de Deus, reconhecer quem é Deus, os seus feitos, a sua ação na História, e como o Senhor se manifestou. Trata-se de reconhecer a identidade de Deus: O Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune…41

Em seguida, eles se reconheceram como pecadores, como infiéis e dependentes de Deus. Olharam para sua condição de fraqueza, seus pecados e até onde haviam chegado por não observarem os mandamentos.

E para concluir, na oração eles pediam a intervenção poderosa de Deus diante da situação: “[…] ouve a minha súplica [… ]”,42 “agora, vem em auxilio a esta órfã […] e a nós, livra-nos das mãos dos nossos inimigos; converte o nosso luto em alegria e as nossas dores em salvação”.43

E rezamos por quê?

Porque nos interrogamos sobre nossa existência, porque queremos respostas, porque nos sentimos solitários e abandonados, porque nos sentimos encurralados pelo dilema entre bem e mal, pelo sofrimento e desespero, e isso nos impulsiona a buscar a Deus como solução definitiva, concreta; rezamos a fim de obter força interior para vencermos. Rezamos porque queremos ser íntimos e amigos de Deus. Rezamos porque queremos ter acesso à vida de Deus. O socorro sempre virá via oração.

Rezar nunca será fácil, pois requer um mover do homem em direção ao sobrenatural; e além de tudo, é um dom de Deus. Precisamos ter posição de gratuidade e gratidão, de dependência e humildade.

Na oração, o homem tem a possibilidade de abrir o coração de Deus. O dom da oração nos leva à conversão. Na oração, o Senhor nos revela quem somos e o que precisamos ser. Deus sempre dá o primeiro passo em direção ao homem em oração, porque Ele o ama.44

O homem não deve orar por orar, mas querendo ser ouvido. Não para ouvir a si mesmo, mas para que Deus lhe responda. Não para querer a resposta que brota do seu coração, e sim a resposta de Deus para a situação. A melhor resposta da oração é aquela que Deus dá.

Qual é a melhor oração?

A melhor oração é aquela em que o homem esquece de si mesmo e foca em Deus, mesmo que seu coração queira muitas respostas. Deus sempre será o começo, o meio e o fim de toda oração.

O Senhor nos faz a recomendação de orar sempre.45 Isso significa que precisamos viver em estado de oração como Ele. Com isso, a nossa vida deve ser toda permeada pela oração, em sintonia com Deus. Que façamos da nossa vida uma oração: ações, gestos, palavras etc. Façamos tudo em Deus, com Deus e para Deus.

Jesus não perdia tempo. Para o bom rendimento de sua missão e vida, Ele aproveitava todas as oportunidades para estar em oração.

Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/na-escola-da-oracao-jesus-e-o-modelo/

 

 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Levar ao mundo um pouco de ternura e amor

 


Conta-se que Madre Teresa de Calcutá, em um momento difícil na comunidade por ela fundada, escrevia às filhas espirituais (Irmãs da Caridade):

Sejam amáveis umas com as outras. Prefiro que cometam erros com amabilidade, do que façam milagres com falta dela.  Sejam amáveis sempre. Contemplem a amabilidade de Nossa Senhora, vejam como Ela falava, como ela agia. Olhem para seu exemplo. Ela podia perfeitamente ter revelado a São José a mensagem do Anjo a respeito do nascimento de Cristo, mas escolheu o silêncio, não disse uma palavra. E nessa altura, vendo seu amor, Deus interveio diretamente em seu favor. Maria guardava todas estas coisas no seu coração, eis a grande lição! E quem nos dera podermos guardar todas as nossas palavras no coração Dela.

Para que tanto sofrimento e tantas incompreensões? Basta uma simples palavra, um olhar, uma pequena ação sem amor e o coração da vossa Irmã mergulha na escuridão. Não deve ser assim. Peçam a Nossa Senhora que vos encha o coração de doçura.

O amo tem a força de mudar o mundo

É como se a Madre nos dissesse, com sua vida, até muito mais do que com suas palavras: decidam-se pelo amor, pois esta é a única força que pode mudar o mundo. E sabendo o quanto precisamos de referências, mostra-nos o melhor exemplo: a Virgem Maria.

Portanto, olhemos para a Virgem Maria, Ela é o exemplo perfeito de quem decidiu amar na simplicidade sem se preocupar em fazer coisas extraordinárias aos olhos humanos. Inspirados em seu exemplo, tenhamos hoje a coragem de levar com nossas palavras e atitudes, luz aos corações ou invés de trevas.

A Madre Teresa fez desta escolha a sua missão durante toda a vida. Em meio às grandes provas pelas quais passou, vivendo a “noite escura da alma”, escreveu ao seu Diretor Espiritual: “Um caloroso sim a Deus e um grande sorriso para todos, são as únicas duas palavras que me mantém seguindo em frente”, e esta escolha corajosa causou tantos benefícios ao longo de sua vida, que escreveria o resto do livro narrando os testemunhos que não param de acontecer através de sua obra.

Aprendendo com as demoras de Deus

Tomemos a decisão de seguirmos em frente vivendo as demoras de Deus com um sorriso nos lábios e um caloroso
sim a Sua vontade que nos chama a optarmos sempre pelo amor, mesmo que cometamos erros, pois o amor é, certamente, o maior milagre do qual o mundo carece. E saber esperar com alegria e leveza é uma arte nobre e rara, porém ao alcance dos que têm Deus como seu aliado.

Dizem que a vida tem a cor que agente pinta, e são nossas escolhas que irão definir seu colorido. Duas pessoas podem, por exemplo, sofrer um acidente juntas, mas cada uma vai dar um sentido diferente à situação. Um pode levar uma vida inteira agradecendo a Deus por ter lhe poupado a vida e mudar completamente os seus hábitos, reconhecendo que cada dia que vive é um verdadeiro milagre, pois poderia já não existir; e a outra pode ter escolhido lamentar-se o resto da vida porque aquele acidente lhe deixou sequelas, porque tal pessoa foi culpada pelo que aconteceu, porque, afinal, estas coisas só acontecem com ele etc.

Então, de qual grupo você faz parte?

Independentemente de sua resposta, eu posso afirmar, com toda certeza, que você é um grande milagre, e reconhecer
isso transforma seu jeito de encarar a vida. Pense bem em tudo que você já viveu até hoje, volte no tempo, analise sua história, os fatos de que você se recorda, as histórias que lhe contaram a respeito de seu nascimento, sua infância, os livramentos pelos quais você passou.

Tenho certeza que logo você vai perceber o quanto Deus tem cuidado de você, livrando sua vida da morte e demonstrando sua presença de diversas formas. Talvez o que tenha até hoje lhe inquietado o coração seja o fato de querer ver seus sonhos realizados no seu tempo, do seu jeito, sem precisar esperar tanto. Mas lhe garanto que esperar com alegria e confiança em Deus é o que dá sentido à sua existência, porque a alegria é algo essencial na vida humana.

Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/levar-ao-mundo-um-pouco-de-ternura-e-amor/

 

 

terça-feira, 27 de setembro de 2022

O que é democracia?

 


O que é democracia? É um modelo político originado na antiga Grécia, mas que teve em seu desenvolvimento moderno a sua principal condição de adaptação mundial.

Sabemos que a palavra “democracia” nasceu na Grécia, especificamente na cidade-Estado de Atenas, no período clássico, sendo composta pelos radicais “demos” e “kratos”, que significam, respectivamente: “povo” e “governo”. Em linhas gerais, a democracia é definida, desde a antiga Grécia, como “governo do povo”, ou “governo popular”, em contraposição a outras formas de governo, que também remontam à Idade Antiga, como a aristocracia, a monarquia, a diarquia, a tirania, a oligarquia, entre outros. Entretanto, quando pensamos em democracia no mundo contemporâneo, algumas nuances devem ser feitas.

  • Democracia moderna

A democracia moderna, tal como a concebemos hoje, isto é, pautada em ordenamentos jurídicos e instituições políticas sólidas, que representam os três poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo), só se tornou possível após a derrocada do Antigo Regime Absolutista, na transição do século XVIII para o século XIX. Com a Revolução Francesa e, depois, a Era Napoleônica, surgiram na Europa alguns dos alicerces do que viria a ser o nosso modelo de regime democrático: a formação de grandes centros populacionais, em virtude da Revolução Industrial; a noção de povo associada a uma nação; a soberania política da nação passou a ser vinculada a esse povo, e não mais ao rei; e a instituição do voto, ou sufrágio universal, como parte do sistema representativo direto.

  • Diferenças entre a democracia ateniense e a democracia moderna

A democracia desenvolvida em Atenas não era considerada o melhor dos governos possíveis (como é hoje o nosso modelo de democracia), e isso por um motivo razoavelmente simples: apenas uma fração mínima dos “homens livres” integrava a vida política de Atenas. Mulheres, escravos, estrangeiros e outras categorias sociais não tinham direito de participar das deliberações da Assembleia (Ekklesia). A experiência da democracia ateniense tinha como preocupação fundamental, antes de qualquer coisa, evitar a tirania – pior forma de governo para época. Do mesmo modo, a forma de governo aristocrático também cumpria esse papel.

Outra diferença importante da democracia grega para a nossa é ressaltada pelo pesquisador Robert A. Dahl. Vejamos:

Também acrescentamos uma instituição política que os gregos não apenas consideravam desnecessária para suas democracias, mas perfeitamente indesejável: a eleição de representantes com autoridade para legislar. Poderíamos dizer que o sistema político inventado pelos gregos era uma democracia primária, uma democracia de assembleia ou uma democracia de câmara de vereadores. Decididamente, eles não criaram a democracia representativa como hoje a entendemos. [1]

A Ekklesia, assembleia grega, era um modelo de instituição política bastante restrito. Como Dahl ressalta, era uma espécie de democracia primária, em termos de representatividade, um “embrião” do que viria a ser a democracia representativa na sociedade de massas.

NOTAS

[1] DAHL, Robert A. Sobre a democracia. Trad. Beatriz Sidou. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001. p. 117.


Por Me. Cláudio Fernandes



Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-democracia.htm

 

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Afinal, para que existe a Bíblia?

 


Sabemos que, para cada coisa, existe um instrumento adequado ou a melhor ferramenta. Você não tentaria esquentar uma pizza no freezer ou usar uma faca para cortar as unhas. Também para o estudo, esta é a primeira e uma das mais importantes perguntas a se fazer: qual é o material que eu preciso para entender determinado assunto? Ou, do que se trata este livro?

E, mesmo que seus assuntos sejam diversos e abrangentes, sempre deverá existir uma boa definição identificando o que realmente se trata, qual o seu escopo ou foco principal. Por exemplo, encontramos lindíssimas reflexões em Fernando Pessoa, como: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” e “a Cruz no alto diz, que o que me há na alma e faz em mim a febre de navegar, só encontrará de Deus na eterna calma, o porto sempre por achar”. Nem por isso podemos dizer que suas obras são espirituais ou tratam de espiritualidade. É poesia, são obras poéticas.

Pensando nisso, pode-se perguntar: do que se trata a Bíblia, afinal de contas? Qual seu escopo, qual seu objetivo final e propósito? Hugo de São Vítor o define assim:

“A matéria [o assunto] das Sagradas Escrituras consiste na obra da restauração (…) [que] é a Encarnação do Verbo com todos os seus mistérios, seja aqueles que o precederam desde o início dos séculos, seja aqueles que o seguirão até o fim do mundo.”

Isto é, todos os livros da Bíblia estão focados na salvação e santificação do ser humano. Isso só foi possível por meio da história e só é possível atualmente, na vida de cada um de nós, por causa da encarnação do Verbo e de tudo que está relacionado à humanidade e divindade de Cristo, caminho, verdade e vida (Jo 14,16).

A Bíblia está focada na salvação do ser humano

Indo mais fundo, cada página, cada palavra, cada história narrada está ordenada para este objetivo último de santificação e salvação. Um livro espiritual que transmite espiritualidade através da Verdade Revelada. E, como vimos no artigo “Os sentidos espirituais da Palavra de Deus”, estas altíssimas verdades espirituais também podem ser fatos históricos (sentido literal), nos ensinam a viver bem entre irmãos (sentido moral), abrem nosso entendimento para enxergar além da realidade que nos cerca (sentido alegórico) e nos explicam realidades da vida celeste (sentido anagógico).

Se os livros bíblicos existem para nos levar à santificação nesta vida e à salvação eterna como consequência natural disso, fica claro o porquê de os sentidos espirituais da Palavra de Deus deverem ser buscados e o motivo de serem tão importantes. Na verdade, o sentido espiritual é tão importante que, às vezes, o sentido literal é deixado de lado e a leitura se torna confusa ou um pouco irreal.

Por causa de maus pregadores e péssimos estudiosos, é comum que, ao se depararem com trechos bíblicos aparentemente confusos, contraditórios e, até mesmo ofensivos, ouvirmos explicações como: “Não era bem isso que o autor sagrado quis dizer… Naquela época, isso parecia normal para as pessoas… No original não está assim, é que não existe uma boa tradução para este caso”.

Há um profundo mistério envolvido em cada trecho bíblico

Podemos respeitar a opinião de todos, mas é sempre bom nos alinharmos com os verdadeiros doutores da Igreja, os que foram testados em sabedoria e santidade. Afinal, também vimos, no artigo anterior, que a Bíblia é um livro selado e somente o Cordeiro o abre e o dá a conhecer a quem Ele ama, seus santos. Deus nos convida à santidade e, somente através dela, temos um verdadeiro encontro com ele: “Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei nele e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3, 20).

Santo Agostinho explicava que, ao se deparar com um trecho obscuro e aparentemente absurdo nas Sagradas Escrituras, deveríamos redobrar a atenção: existe uma verdade espiritual profunda ali. Um ensinamento e um mistério que nos abre as portas para a santificação. Para ficar mais claro, examinemos dois exemplos:

O desejo da Sabedoria

No primeiro, Jacó, após trabalhar sete anos para ter o direito de se casar com Raquel, passa a noite de núpcias com Lia, irmã dela, e só nota o engano promovido por seu sogro Labão, no dia seguinte (Gn 29, 20-27).

Interpretada literalmente, a narração beira o absurdo. Que homem, amando profundamente uma mulher ao ponto de se sujeitar a sete anos de trabalho por ela, não reconheceria uma troca destas na noite de núpcias? Deixemos as explicações simplórias ou as desculpas que denigrem a Palavra de Deus. Siga Santo Agostinho: que verdade importante e misteriosa há aí que só os que buscam a santidade veem? Ouça Hugo de São Vítor: o assunto das Sagradas Escrituras sempre é a obra da restauração do homem caído pelo pecado.

Um discípulo de Hugo, chamado Ricardo de São Vítor (1110-1173), explica que esse equívoco grotesco acontece não somente com Jacó, mas com todos aqueles que buscam a Santidade. De fato, Raquel é o símbolo da Sabedoria e todos passam a desejá-la assim que percebem a sua existência através da conversão pessoal. A Bíblia é explícita em dizer que “Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha” (Gn 29,20).

Não há santidade sem busca das virtudes!

Quem lê a Palavra e não deseja encontrar as revelações de Deus? Quem não quer sua sabedoria? No entanto, ao se direcionar à busca da santidade, essa não lhe é dada facilmente. Existe luta, suor, dedicação (representada pelos sete anos de trabalho) e, finalmente, nunca haverá santidade sem que antes haja a conquista das virtudes. Essa é Lia! A irmã mais velha da Sabedoria é a Virtude. E não existe encontro íntimo com a santidade, sem antes um verdadeiro casamento com as boas obras.

Como todo homem que quer ser legitimamente santo (casar-se com Raquel), Jacó precisará primeiro possuir a virtude (casar-se com Lia). Ou todo aquele que deseja ardentemente a sabedoria de Deus precisa entregar-se à guerra interior (os sete anos de trabalho) de dominar as suas paixões e vícios, possuir a virtude (unir-se com Lia), para depois ter direito à Sabedoria almejada (unir-se com Raquel).

Santificar-se é unir-se ao Cristo

No segundo exemplo, vemos Rute, a moabita, que, após ficar viúva, seguiu sua sogra, também viúva, para a terra de Israel (Rt 1,14). Embora todo o livro de Rute tenha um conteúdo alegórico maravilhoso, existe um trecho que é uma verdadeira pedra de tropeço para aqueles que não contemplam o sentido espiritual da Bíblia e seu retrato-estímulo para nossa santidade e salvação.

Rute narra à sua sogra Noemi o acolhimento que teve por parte de Booz, senhor de muitas terras em Belém, dizendo que ele permitiu que ela andasse recolhendo as espigas caídas no chão para que as duas não passassem fome. Logo após, recebe um conselho inusitado de sua sogra. Noemi recomenda que ela tome um banho, coloque seu melhor vestido, espere o senhor Booz estar bem satisfeito com a comida e bebida, deitar-se para dormir, para que a moça, sorrateiramente, levante a coberta de seus pés e deite-se naquele lugar. O objetivo? Booz acordaria e encontraria Rute deitada aos seus pés, debaixo de sua coberta. A partir daí, a moça deveria fazer o que ele dissesse (Rt 3,1-9).

Deixemos de lado as desculpas de que “se fazia assim em Israel naquele tempo”, porque não é verdade nem lá e nem em lugar nenhum. A evidente falta de lógica na situação nos leva a pensar: isso é símbolo de quê? Se, como vimos, a Palavra de Deus trata prioritariamente da restauração e santificação humana, por que um livro inteiro para mostrar como foi gerado o avô do rei Davi, Obed, filho de Rute e Booz (Mt 1,5)?

A alma obediente de Rute

Uma das interpretações espirituais dos santos padres dos primeiros séculos, recolhida e sistematizada pelos teólogos da Abadia de São Vítor, em Paris, no século XII, é que o livro retrata a alma obediente (Rute), que parte em busca de Cristo (Booz).

Ela conta a história de Rute, nome que traduzido significa “a que se apressa”. Rute é orientada por Noemi, ou “formosa”, pois é o pregador que tem a beleza das virtudes e orienta a alma. É designado por uma mulher porque assim como as mulheres geram filhos, os que ensinam a Palavra geram almas para Deus.

Na passagem em questão, a alma obediente ao diretor espiritual que a orienta lava-se do seus pecados, veste-se com os vestidos das virtudes e boas obras e vai ao encontro do Cristo. Mas, por melhor que se prepare a alma, ela nunca estará a altura da dignidade do seu salvador. Por isso, deve esperar que o Cristo esteja saciado em cumprir a vontade do Pai, pois Ele mesmo diz que esta é sua comida e sua bebida (Jo 4,34). Só então, percebendo que o Salvador vê seu esforço pelas boas obras e entendendo que está saciado ao ver o Reino de Deus que se propaga, a alma pode se aproximar.

A sabedoria é o próprio Cristo

Mas não de qualquer maneira, não de igual para igual. Investigando humildemente o mistério da nossa redenção operada pela encarnação do Verbo, simbolizada por deitar-se aos seus pés (o membro mais próximo da terra) e aguardando que Ele a veja e a oriente devidamente. O objetivo final? A união plena com Cristo ou, como chamava Santa Teresa d’Ávila, o matrimônio espiritual.

Claro, não podemos esquecer que os sentidos espirituais estão baseados no sentido literal e o pressupõe, como tão bem determinou Santo Tomás de Aquino. Tão perigoso quanto acreditar que a Bíblia é somente um livro histórico com a narração de fatos que ocorreram a, pelo menos, dois mil anos, é ignorar seu sentido literal, inventando sentidos espirituais inexistentes. Por isso, a chave espiritual da Bíblia sempre será o encontro pessoal e profundo com Cristo, a verdadeira porta (Jo 10,9).

Fica, portanto, o convite para se unir com Lia, antes de chegar a Raquel. E de seguir os conselhos de Noemi, para finalmente encontrar-se com Booz. Recusando a vida de pecado e buscando com afinco a vivência das virtudes chegará o momento de desposar a Sabedoria, que é o próprio Jesus Cristo.

Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/historia/afinal-para-que-existe-biblia/

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Tem cuidado de ti mesmo

 


“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (I Tm 4,16).

Você tem cuidado de você mesmo? Tem olhado para si e percebido do que precisa para seguir na caminhada?

Nos tempos de hoje, sempre cheio de atividades, o risco de nos perdermos é grande. O trabalho, a família, os compromissos sociais, inclusive religiosos, nos fazem ir de uma lado para o outro e a ter de fazer muitas coisas. Nessa mistura de coisas e atividades está você, então, é preciso cuidado e atenção!

Do que é que você realmente precisa? Você costuma fazer essa reflexão? Tenha cuidado para não ir somente atrás dos seus instintos. Normalmente, podem te levar ao que só te dá prazer e satisfação momentâneas. É aí que entram, principalmente, os pecados capitais: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e orgulho. Esses pecados nos levam ao desequilíbrio emocional, espiritual, humano e enfraquecem nosso caminhar.

Fique atento a você mesmo! Busque a graça de Deus para descobrir o que vai te fazer bem. Atividade física, uma boa leitura, descansar e dormir bem, alimentação equilibrada etc. Sobretudo, se você percebe que tem sido difícil ter uma vida mais harmoniosa, procure ajuda na Igreja e também com bons profissionais. Mas tome cuidado de ti mesmo. Não se deixe levar pelas ondas do mundo. Lembre-se: Deus está contigo e te quer bem!

Fonte: https://mensagem.cancaonova.com/mensagem-do-dia/tem-cuidado-de-ti-mesmo/

 

 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

São Jerônimo e a tradução da Bíblia

 


Há um conhecido ditado italiano que diz: “Traduttore, traditore”, isto é, “tradutor, traidor”. Ele deixa explícito, de um jeito mordaz, a principal dificuldade de um tradutor: permanecer fiel ao texto original. Afinal, para ser fiel ao sentido, às vezes, é necessário sacrificar o estilo do autor e vice-versa.

Enfim, não existe tradução sem escolhas que, por sua vez, resultam em maiores ou menores perdas. Obviamente, a perda do sentido original é o que faz valer a comparação de um tradutor com um verdadeiro traidor: sob o pretexto de tornar a obra conhecida em outras línguas, acaba-se gerando novos sentidos ou embaralhando os existentes.

O que dizer então da tradução dos 73 livros que compõem a Bíblia Católica? Cada qual possuindo, além dos sentidos literais e históricos afastados de nós em pelo menos dois milênios, sentidos espirituais profundos, acessíveis somente àqueles que fazem a experiência da vida em santidade.

Tamanha empreitada precisaria de um homem cultíssimo e santo, que gastasse sua vida e suas orações no intuito de não ser um traidor, mas um verdadeiro intérprete. Quis a misericórdia de Deus providenciar um homem assim, que hoje nós conhecemos como São Jerônimo.

Tradução autêntica

Mas como e por que nasceu a única tradução da Bíblia, a Vulgata Latina, reconhecida como autêntica por um Concílio da Igreja, o Concílio de Trento (1546-1563)?

O Antigo Testamento, escrito originalmente em hebraico (com uma pequena parte em aramaico), e o Novo Testamento, escrito em grego, foi traduzido para a língua latina para atender a Igreja de Roma e, com o Edito de Milão (313 d.C.), todo o Império Romano.

No entanto, durante o pontificado do Papa Dâmaso (366-384 d.C.), já existiam três versões da Bíblia em latim: as versões de Áquila, Símaco e Teodocião. Discordantes entre si, mesmo nos textos do Novo Testamento, utilizavam, para o Antigo Testamento, a versão traduzida para o grego “dos Setenta” ou Septuaginta, ou seja, uma tradução da tradução.

Essa versão dos setenta sábios hebreus foi realizada a pedido do rei Ptolomeu do Egito (1 século antes de Cristo) e gozava de uma aura quase mística: setenta e dois sábios judeus traduziram, de forma solitária e independente, em celas separadas, os livros sagrados dos hebreus do hebraico para o grego e, quando confrontaram as cópias, as traduções eram idênticas!

São Jerônimo contesta essa versão em sua “Apologia contra os livros de Rufino”, dizendo que, além de não existir documento que comprove essa narrativa, existem outros que atestam “que, reunidos em uma mesma residência real, eles conferenciaram”, isto é, o que seria um procedimento normal numa tradução de tamanha envergadura: vários tradutores discutindo entre si qual seria a melhor tradução para cada passagem.

Críticas à tradução da Septuaginta

No entanto, essa reconhecida tradução da Septuaginta não era isenta de críticas. Muitas citações dos livros hebraicos feitas pelos Apóstolos nos livros do Novo Testamento (e até pelo próprio Cristo nos Evangelhos) não apareciam na versão “dos Setenta”. São Jerônimo diz claramente que:

“Certamente, os apóstolos e os evangelistas conheciam os Setenta tradutores. Mas de onde vem que eles citam esses textos que não se acham nos Setenta? O Cristo, nosso Deus, autor de dois testamentos, declara no Evangelho segundo São João: ‘Aquele que crê em mim, ele diz, conforme diz a Escritura, de seu interior fluirão rios de água viva’ (Jo 7,38). Com toda a certeza está escrito aquilo que o Salvador testemunha que foi escrito. Onde está escrito? A edição dos Setenta não tem este texto…”

São Jerônimo ainda cita mais 5 passagens que são referências das Sagradas Escrituras, nos textos do Novo Testamento, que não são encontrados na tradução dos Setenta. Qual seria o motivo? Segundo ele, investigou entre os sábios hebreus do seu tempo:

“Os judeus dizem que se agiu por medida de prudência, de modo que Ptolomeu, que cultuava a um só deus, não surpreendesse mesmo junto aos hebreus uma dupla divindade, os quais ele tinha em muito alta estima porque pareciam cair no dogma de Platão. Com efeito, onde quer que a Escritura ateste algo sagrado sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, ou eles traduziram diferentemente ou então eles guardaram um silêncio absoluto, de modo a satisfazer ao rei e não divulgar o segredo da fé.”

As profecias que se cumpriram

Outro grande motivo que levou São Jerônimo a traduzir diretamente do hebraico para o latim, e não utilizar a versão dos Setenta, é que essa versão tinha sido feita um século antes de Cristo, quando não havia ainda ocorrido todos os fatos históricos referentes ao Messias predito nos textos sagrados.

Uma coisa é traduzir fatos que constam em forma de profecias e ainda não se realizaram. Outra, completamente diferente, é traduzir profecias que, devido à Paixão e Ressurreição de Cristo, se tornaram também fatos históricos. Ou, como mesmo disse São Jerônimo: “Aquilo que melhor entendemos também exprimimos melhor”.

Nem passou despercebido por ele que, com a destruição de Alexandria (48 a.C.), a própria tradução “dos Setenta” possuía quatro ou cinco versões diferentes em uso pelas diversas Igrejas Cristãs.

Qual seria a mais fiel?

Para resolver todas essas dificuldades, a partir de 386 d.C., São Jerônimo passa a morar numa gruta em Belém. Gastava seus dias e noites em orações e na tradução da Bíblia. Aproveitou-se do seu excelente domínio do latim, do grego e do hebraico. E para aprender esse último idioma, ele mesmo diz em sua Carta 125: “quantas fadigas isso me custou; quantas dificuldades enfrentei; quantos desânimos precisei superar” (…).

Não foram 34 anos fáceis até a sua morte em 30 de setembro de 319 d.C. (ou 320). Enfrentou crises na Igreja local de Jerusalém; e críticas e mais críticas sobre suas traduções. Note-se que recebeu críticas até mesmo de Santo Agostinho, com quem correspondia regularmente, incomodado pelas diferenças entre a Vulgata e a Septuaginta. Divergências que foram superadas em favor do santo anacoreta de Belém.

É importante salientar que, São Jerônimo não criticava a Septuaginta. Reconhecia a sua importância e constantemente alegava em sua defesa o seu caráter de “encomendada” pelo rei do Egito: “Donde eu suponho que naquele momento os Setenta não quiseram revelar aos pagãos os mistérios de sua fé, para não dar aos cães o que é santo, nem pérolas aos porcos”. Mas defendia firmemente a necessidade de uma tradução que fosse muito mais fiel ao texto hebreu original e, principalmente, à tradição passada pelos Apóstolos e Evangelistas.

Tradutor ou traidor? Muito mais que um tradutor, um santo que buscava verdadeira inspiração antes de traduzir. Papa Clemente VIII, ao se deparar com a magnitude de sua obra, disse: “Jerônimo foi assistido e inspirado pelo Céu para traduzir as Sagradas Escrituras”.

Embora, nos séculos XX e XXI, tenha crescido enormemente os conhecimentos filológicos que levaram muitos a realizarem novas traduções a partir dos originais dos textos sagrados, multiplicando as versões da Bíblia, podemos ainda perguntar: “Contam também com a inspiração do Espírito Santo? Traduttori, traditori?”.

 Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/historia/sao-jeronimo-e-a-traducao-da-biblia/


Feliz Ano Novo!

 É hora de receber o  Ano Novo  com alegria e esperança no coração. De deixar o ruim no passado, e abraçar o futuro com otimismo. Vamos faze...